terça-feira, 10 de março de 2009


Ela tinha suportado tantos anos daquilo. O mais surpreendente era que ainda era capaz de suportar. Só não sabia como. Os lábios dele moviam-se com agilidade. Pareciam coreografados. E ela não entendia nada. Nadinha. Sua boca era bonita e teve um tempo em que ela pensou que isso a distraia. Começou a virar as costas quando ele falava. Mas não resolveu. A única diferença era que o som chegava mais estranho. Ela foi aprendendo a pensar em outras coisas. Lá estava ele falando, sei lá, do tempo, e ela reparava na cortina com aquela mancha, nos pratos que teria que lavar daqui a pouco. Ou ele não sabia da sua fuga mental ou não se importava. Às vezes ela entendia um “não é?”. E respondia “claro, amor”. E, se foram felizes, o que importa se era um amor fingido? Fingia-se que falava, fingia-se que ouvia.

3 comentários:

Max Braga disse...

Belo e triste.

Perturbador e sublime.

O que mais posso dizer?

ilda vasques disse...

Foram felizes? Não acredito! Estão apenas "levando a vidinha", pois o Amor verdaeiro não permite fingimentos. Mas o texto é lindo! Bjs. Ilda

Iasmin disse...

Ótimo texto! Como sempre né? Vou um pouco mais além do Max.Pertubador,sublime...portanto REAL.Realidade qi nem todos entendem. Beijocas linda :*