
SENTIMENTALISMO
A angústia na sala era perceptível. Muitas lágrimas, muitos cigarros e um silêncio que ninguém ousava quebrar. E quando alguém quebrava era uma apreensão coletiva:
-Tudo está demorando demais.
Os passos no corredor só pioravam. Parecia que a qualquer momento o homem de branco (porque a essa altura seu nome não mais fazia diferença) entraria pela porta e daria a péssima notícia. De certa forma era um total pessimismo de minha parte. Mas naquele ambiente era impossível pensar em uma espécie de comemoração. Qualquer que fosse a comemoração.
As horas se arrastavam e a única mudança no cenário eram os olhos que pareciam ficar mais fundos, os ombros que caiam em cansaço e os dentes que já se amarelavam na falta de comida e escovação. De repente alguém se levantava e perguntava:
-Alguém quer que eu busque alguma coisa?
E na negação geral, ele também parecia desistir de pegar algo para si próprio. Mesmo assim infinitos copos de café surgiam a nossa frente. Só Deus sabe como. Talvez a hospitalidade daquele lugar fosse mesmo a melhor. Ah! Engraçado usar a palavra hospitalidade.
-Mãe, acho que a senhora deveria ir para casa.
Ela estava cansada demais e mesmo assim se deu ao trabalho de apenas acenar em negativa com a cabeça. E na falta do que fazer, um tentava ajudar o outro oferecendo coisas e deixando claro que poderia ir embora que qualquer coisa iríamos avisar. Não sei quanto tempo havia passado, mas finalmente o homem de branco entrou e disse em uma voz calma e desprovida de emoção (o que eu acho que deva ser o procedimento padrão):
-Sinto muito. Ele não agüentou.
Fiquei por um tempo consolando minha mãe e abraçando parentes. Depois finalmente coloquei o casaco e saí, triste pela perda, mas feliz que tudo tivesse chego ao fim. O dia lá fora parecia o mesmo e eu voltei a minha rotina, deixando as emoções naquele edifício de mundo próprio.
3 comentários:
titulo perfeito
texto indescritivel
é, e como tem criatividade essa menina...
Ah, gente... brigada *-*
Fila para os autógrafos!
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