quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Mundo Mágico



DOM

Ela era um ser curioso. Na sua imensa pequenez com traços tão delicados e finos que de longe não delimitavam nada. Andava descalça e mesmo assim tinha os pés mais perfeitos que poderiam existir. Era excêntrica aos olhos dos outros. Um ser estranho, calado... que falava com plantas.
Ora, não era como se ela falasse sozinha. As plantas respondiam sim. Eram suas melhores amigas. Quer dizer, algumas. Uma coisa que ela pode notar com o tempo é que nem sempre as mais belas plantas eram as mais educadas. As flores, por exemplo, na sua magnificência de cor, aroma, beleza, eram muito arrogantes. Julgavam-se essenciais. Sem elas o mundo não teria um terço de beleza. Elas sabiam como alegrar ambiente, como quebrar o coração de uma mulher em uma forma única de desculpas, como conquistar alguém. Viviam tão fechadas em seu próprio mundo que nem notavam que eram as primeiras a morrer.
Agora, as árvores grandes, essas sim eram legais. Ninguém as notava, então viviam bastante. O suficiente para aprenderem com o tempo. Eram as mais velhas, então, eram as que tinham melhores conselhos. As sombras que eram capazes de fazer demonstravam o tamanho de sua generosidade.
Enfim, eram essas suas amigas. Ela não tinha culpa se elas a entendiam melhor que qualquer pessoa. Não era loucura. Era dom. O tipo de dom que criaturas pequenas como fadas poderiam ter. E ela dançava na chuva, pulando em poças, brincando feito criança. Nos dias de sol apenas ficava deitada na grama ou sobre a sombra de uma árvore.
Isso tudo atraia atenção demais. Insanidade, todos pensavam, ao mesmo tempo em que no fundo sentiam profunda inveja. Queriam ser como ela. Ter seu dom. Mais do que o dom de conversar com plantas; o dom de ser ela mesma. Porque era louca, mas era feliz.

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